Até Manuela começou a chorar, embora provavelmente entendesse só metade.
Lívia, sentada na cadeira com um adesivo de estrela na camiseta, olhou para todos nós e perguntou:
— Então o bichinho ruim foi embora mesmo?
O médico sorriu.
— Foi embora, campeã.
Ela pensou por dois segundos e depois disse:
— Então eu posso voltar para a piscina quando sarar?
Todos rimos. Até Juliana, entre lágrimas.
— Pode — o médico respondeu. — Mas sem mergulho olímpico por um tempinho.
Na semana seguinte, eu praticamente me mudei para a casa da minha irmã. Organizei remédios, fiz compras, levei sopa, fiquei com Lívia durante as consultas de retorno e busquei Manuela na escola quando Juliana não conseguia sair do trabalho. Pela primeira vez em muito tempo, nós duas paramos de fingir que sempre dávamos conta de tudo.
Numa noite, depois que as meninas dormiram no sofá vendo desenho, Juliana se sentou à mesa da cozinha comigo, segurando uma caneca de café já frio.
— Sabe por que eu não te contei? — ela perguntou.
Eu balancei a cabeça.
— Porque, se eu dissesse em voz alta, ficava real. E eu achei que, se eu continuasse me movendo, assinando papéis, limpando a casa, respondendo e-mails, talvez eu não desmoronasse.
Olhei para ela por cima da minha xícara.
— E funcionou?
Ela soltou uma risada sem humor.
— Não. Só me deixou sozinha.
Estendi a mão por cima da mesa. Ela segurou.
— Então aprende isso de uma vez, Ju — eu falei. — Ser forte não é carregar tudo sem pedir ajuda. É saber em quem cair quando as pernas falham.
Dessa vez, ela sorriu de verdade.
Meses depois, quando o último exame veio limpo, nós comemoramos do jeito que Lívia escolheu: bolo de chocolate, brigadeiro, refrigerante, piscina inflável no quintal e uma coroa de papel cor-de-rosa onde Manuela escreveu com glitter torto:
LÍVIA VENCEU O BICHINHO RUIM
Juliana tentou dizer que estava exagerado.
As meninas ignoraram.
Mamãe apareceu com salgadinhos demais, eu levei presentes demais, e até o vizinho trouxe uma caixa de suco como se estivesse participando de uma festa histórica. E, para nós, de certo modo estava mesmo sendo.
No meio da bagunça, Lívia correu pelo quintal com as costas já cicatrizadas, rindo tão alto que era difícil acreditar que aquela era a mesma menina silenciosa do vestiário.
Ela parou na minha frente, com o rosto suado e feliz.
— Tia Clara?
— Oi, meu amor.
— Obrigada por me levar ao hospital — ela disse, com a simplicidade de quem ainda não sabe o tamanho do que viveu. — Mesmo quando a mamãe mandou voltar.
Eu engoli em seco e me ajoelhei para ficar da altura dela.
— Eu sempre vou dirigir na sua direção, entendeu? Sempre.
Ela sorriu e me abraçou pelo pescoço.
Do outro lado do quintal, Juliana viu a cena. Levou a mão à boca, emocionada. Eu olhei para minha irmã, e ela me devolveu um olhar cheio de gratidão, desses que não precisam de palavras.
O sol de fim de tarde dourava as paredes, a água da piscina inflável brilhava, Manuela gritava alguma regra inventada de brincadeira, e por um instante tudo pareceu milagrosamente comum.
Depois de semanas de medo, aquilo era mais do que felicidade.
Era paz.
E, naquela casa barulhenta de Campinas, entre risadas infantis, cheiro de chocolate e braços finalmente abertos uns para os outros, nossa família entendeu uma coisa que talvez devesse ter sabido desde sempre:
o amor não é apenas proteger alguém do perigo.